Confesso que peguei o livro sem muita fé, só para dar aquela “espiadinha” entre tantos títulos na Saraiva. Sou frequentadora do flog da Mayra e admirava sua fotogeniedade (oh, God, essa palavra existe?). Depois de dois minutos com o livro na mão, não tive dúvidas de que o lugar dele era no meu quarto, na minha coleção.
Li tudo em tacadas durante três dias. Viajei com a personagem principal, Satine (esse nome foi a única coisa que eu não gostei no livro, mas… who cares?), enquanto fumava alegre meu narguilé com erva sabor menta. Delícia.
O mundo descrito no livro, sob o olhar de uma adolescente em constante fuga de sua realidade, condiz com o meu em muitas partes. Morte, depressão, letargia, suicídio, obsessão. Essas coisas fazem parte da vida de tanta gente, e é tema de autores tão consagrados e idolatrados em círculos distintos, que Fugalaça poderia cair num clichê sem sal. Mas não é isso que a bela escritora faz, bem pelo contrário. Nunca vi tão boas metáforas cuspidas por uma mente tão jovem. Na realidade, nem deveríamos lembrar da juventude da moça, isso é o de menos. Mayra escreve com fúria, numa série de confissões capturadas em câmera lenta, para que possamos enxergar os mínimos detalhes de sua alma. O livro fala até coisas que ali não foram escritas. Há diálogos inteiros entre a autora e o leitor entre uma frase ou outra, impossível de não sentir. É como se ela gritasse, e por vezes sussurrasse, em nosso ouvido palavras que entregam a sua essência perturbada.
E as referências musicais então? Noooossa! Fiquei de queixo caído. E aqui vou ressaltar uma passagem em que Satine se corta para abrandar a dor que a consome por dentro e nisso ela menciona as palavras “o meu Frankstein”, fazendo minha mente disparar diretamente para Feed my Frankstein (baixem, é boa) by Alice Cooper. As coisas se encaixam bem, e acredito que a ‘inicialização’ da garota no undergroud se encaixa perfeitamente com o debut de muitas nesse mundinho perverso e diabolicamente extasiante, sexy e sujo.
Só acho que ela poderia ter escrito sua própria mini-biografia, ao invés de trocar tantos nomes e colorir tantas situações… Porque eu sempre vou achar que tudo aquilo aconteceu de fato com Mayra Dias Gomes, e não com Satine.
Já passei por 70% das situações do livro, so… ponto para autora, já que 30% das gurias como eu também passaram por tudo aquilo. A eterna busca por algo que nunca poderemos resgatar.

Então, vamos ao fato. A princesa austríaca (na real, arquiduquesa) parte para a França, aos 14 anos, para se casar com o heredeiro do trono, que futuramente seria lembrado como Luis XVI. Sem entrar em detalhes do enredo da biografia, sinceramente, eu esperava mais do filme. Não noto solidez emocional ou a tensão psicológica que a história pede. A intenção do filme era de mostrar uma Maria Antonieta menos frívola, mas o que eu vi nela foi um show de futilidades e mais nada. Não passa de uma garota comum. Teve problema no início de seu casamento, pois seu marido não a tocava. Confesso que de início dei várias risadas mentais, pois achava que ele seria revelado um homossexual. Mas não, o garoto só tinha problemas de iniciativa sexual, nada demais. Entretanto eu achei o desenvolvimento desse fato crucial (sim, porque ficamos mais de uma hora do filme na função da não-consumação do casamento) foi por deveras esparsa. É um ‘bafafá’ na corte em volta da falta de sexo entre o rei e a rainha, e no fim basta o irmão de Antonieta ter uma simples conversa com Luís e logo na cena seguinte ele está montado em cima dela. Assim, sem mais explicações.
Falar nisso é engraçadissima a cena em que a câmera foca a rainha trocando um par de sapatos azuis e ao lado aparece um PAR DE ALL STAR roxos e VELHOS! Demais, demais. Combinou com a trilha sonora do filme, que continha um rockizinhos teen de linha britânica. Música para teenagers e só. Aliás: Maria Antonieta é a completa garota-teen da realeza. Kirsten Dunst, apesar da rasa profundidade emocional de sua personagem, cumpre sua função com brilho e excelência.